DA SÉRIE: "O CÉU DE CEARÁ-MIRIM"
por Franklin Jorge
O PALACETE ANTUNES
16 de Setembro de 2008
Quando o sobrado foi construído em 1889 a matriz ainda não possuía as suas altas torres. Levantadas por iniciativa do coronel José Antunes de Oliveira, para que os matutos que chegavam à cidade pela primeira vez não confundissem sua casa com a igreja.
Marco de uma época de prosperidade açucareira, o Palacete Antunes está assentado sobre uma suave colina da qual se descortina o Vale paradisíaco recriado amorosamente pelo escritor Nilo Pereira.
Transformou-se em uma testemunha sentimental do Ceará Mirim ao longo de um século cheio de rumores, de esplendor e decadência. De linhas sóbrias, o Palacete Antunes ficaria conhecido como “o Bahia”, numa alusão um tanto irônica e profética ao vapor do mesmo nome que Segundo Wanderley, tardo-condoreiro epígono de Castro Alves, salvaria do naufrágio através dos versos de um poema que correu o Brasil letrado. Hoje faz parte da arqueologia literária.
Ninguém jamais poderia suspeitar que o coronel morreria pulando de uma dessas janelas, quando da falência da indústria açucareira, em 1910. Depois da tragédia, o epigramático e enlutado palacete cerrou suas portas por quase vinte anos.
O velho Palacete Antunes aglutinou em seus salões a vida social e literária do Ceará Mirim na primeira metade deste século. Sintetizou a belle époque provinciana com os seus saraus aristocráticos, seus jogos de salão, seus bailes de máscaras, leituras e recitais freqüentados pela nobreza da terra.
Reaberto por Maria Madalena Antunes Pereira (1880/1959), autora de “Oiteiro, Memórias de uma Sinhá-Moça”, o Palacete reconquistou o seu prestígio social e cultural. Os jornais manuscritos ainda circulavam, constituindo uma performance contra o tédio dos dias estirados e sem acontecimentos.
Ao longo das paredes, os sisudos retratos do coronel José Antunes e de sua mulher, Dona Joaninha, pintados por Pierre, artista francês que andou perdido pelo Ceará Mirim, em plena monarquia, ganhando a vida como retratista da burguesia açucareira.
Nilo Pereira, cronista admirável de um tempo perdido, recorda o atrito entre Pierre e Fausto Pereira, que o repeliu energicamente, quando, após exagerar no vinho tinto, dizia o pintor cheio de spleen, Nascer no Boulevard des Capuccines e morrer nesta capuêrra...
Os versos do “Elogio da Preguiça” costumavam ser bisados com entusiasmo nessas reuniões de Dona Madalena, irmã do poeta Juvenal Antunes, que deste modo se fazia presente, embora vivendo no Acre.
Bendita sejas tu, Preguiça amada,
Que não consentes que eu me ocupe em nada!
Mas, queiras tu, Preguiça, ou tu não queiras,
Hei de te dizer, em verso, quatro asneiras.
Não permuto por toda a humana ciência
Esta minha honestíssima indolência.
Está na Bíblia esta doutrina sã:
Não te importes com o dia de amanhã.
Para mim, já é grande o sacrifício
Ter de engolir o bolo alimentício.
Ó sábios, daí à luz um novo invento:
A nutrição ser feita pelo vento!
Todo trabalho humano, em que se encerra?
Em, na paz, preparar a luta, a guerra!
Dos tratados, e leis, e ordenações,
Zomba a jurisprudência dos canhões!
Juristas, que queimais vossas pestanas,
Tudo o que legislais dá em pantanas.
Plantas a terra, lavrador? Trabalhas
Para atiçar o fogo das batalhas...
Cresce o teu filho? É belo? É forte? É loiro?
Mais uma rês votada ao matadouro!
Pois, se assim é, se os homens são chacais,
Se preferem a guerra à doce paz,
Que arda, depressa, a colossal fogueira
E morra, assada, a humanidade inteira!
Não seria melhor que toda gente,
Em vez de trabalhar, fosse indolente?
Não seria melhor viver à sorte,
Se o fim de tudo é sempre o nada, a morte?
Queres riquezas, glórias e poder?
Para que, se, amanhã, tens de morrer?
Qual mais feliz? – O mísero sendeiro,
Sob o chicote e as pragas do cocheiro?
Ou seus antepassados que, selvagens,
Viviam, livremente, nas pastagens?
Do trabalho, por serem tão amigas,
Não sei se são felizes as formigas!
Talvez o sejam mais, vivendo em farras,
As preguiçosas, pálidas cigarras...
Ó Laura! Tu te queixas que eu, farsista,
Ontem faltei, à hora da entrevista,
E, que ingrato, volúvel e traidor,
Troquei o teu amor -- por outro amor,
Ou que, receando a fúria marital,
Não quis pular o muro do quintal.
Que me não faças mais essa injustiça!
Se, ontem, não te fui ver, foi por preguiça.
-- Mas, Juvenal, estás a trabalhar!
Larga a caneta e vai dormir... sonhar...
.
Minha avó recorda um dos últimos grandes bailes à fantasia organizado por Dona Madalena, filha do coronel Antunes, derradeira moradora do Palacete que um neto seu Ruy Pereira Júnior, anos depois, restauraria, doando-o em 1975 para sede da Prefeitura Municipal de Ceará Mirim, num gesto jamais copiado por nenhum outro homem público no Rio Grande do Norte.
Os convidados figuravam personagens romanescos, apreciados por ledores do gênero. Meus avós maternos foram fantasiados de Paulo e Virginia, personagens de Bernardin de Saint-Pierre e da prosa clássica francesa do século XVIII. Nessa festa inesquecível os convidados um pajens damas dos tempos antigos recebiam os convidados à porta e os conduziam ao grande salão reluzente.
Dona Madalena colaborou na imprensa potiguar sob pseudônimo de Ildarisa Flores, continuando a tradição de um Ceará Mirim que ainda se esmerava no cultivo das letras.
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