8a. Lembrança
Como é bom viver em 2009, bem melhor que no longínquo ano de 1972, principalmente quando escrevendo estas crônicas sou levado pelas muitas águas que passaram em minha vida.
Água, um bem maior e indispensável. De onde vêm as águas? As muitas águas que banham nossa vida, que matam nossa sede, que emergem do solo e de maneira humilde correm em pequenos afluentes, riachos que se rendem aos rios e estes deságuam no mar.
A Fazenda Santa Maria ficava na fronteira com o município Maxaranguape, a divisão natural entre este e aquele município sempre foi o rio. Outros córregos existiam dentro daquela fazenda, alguns recebiam nomes: Rio dos Homens, Rio das Mulheres, e outros eram denominados valas, mas todos translúcidos, cristalinos, piscosos, em cujas águas nadavam Carás, Cascudos, Traíras, Cangulos, Piaus e cardumes de piabas, os peixes crianças.
Os perigos que podiam emergir daquela profundeza era uma cobra d’água, um jacaré, mas eles não vinham. Sempre se desviaram dos homens. O grande mal estava invisível aos nossos olhos e tinha o nome de esquistossomose, mas nós conhecíamos popularmente por xistossoma.
__Mãe eu vou para o rio tomar banho!
__Vai não, tem xistossoma demais naquelas águas e você vai adoecer.
Era sempre assim. Desobedecíamos e tomávamos banho, nus, naquelas águas maravilhosas. Eu não sabia o que era xistossoma. Sabia sim, o que era alegria e o prazer de mergulhar naquele rio.
O “Rio das Mulheres” ficava próximo da cocheira, lá elas lavavam as roupas, batiam-na na pedra, alvejavam, quaravam e estendiam nas cercas de arame farpado. Também podiam tomar banho e nenhum homem tivesse o atrevimento de ir até lá bisbilhotar. Aquele era um balneário sagrado, próprio das mulheres.
As águas que as banhavam corriam formando no mesmo leito, algumas curvas adiante, e sempre ornamentadas por aningas, vegetação tão peculiar naquele vale, o “Rio dos Homens”. Eu me orgulhava de tomar banho neste rio.
Naquela fazenda existia também a Lagoa do Mateus, ela situava-se ao Oeste, era totalmente cercada por vegetação de tabuleiro. A primeira vez que a vi foi com tio Chico Leite, ele me levou até aquelas águas e me falou que aquela lagoa foi formada muitos anos depois que um vaqueiro por nome Mateus, morreu de sede, perdido na mata. Lenda? Não sei, só sei que quando as chuvas são fortes e constantes, as águas da lagoa transbordam e correm procurando o Maxaranguape.
Ainda sobre as águas, é bom confessar que bebíamos água de pote. Fria, gostosa, tão nossa. Ela vinha da cacimba, carregada em galões, que feriam pelo peso e pela haste as espáduas dos trabalhadores braçais que abasteciam nossa casa. Canindé e Parreira eram quem mais faziam este serviço, logo nas primeiras horas da manhã.
De todos os dias semanais, o sábado era o mais movimentado na fazenda Santa Maria. E isto porque os homens vinham receber o pagamento da semana e aproveitavam para comprar os gêneros alimentícios.
Eles chegavam aos poucos, sentavam-se nos bancos de madeira que existiam debaixo da tamarineira. Conversavam sobre os mais variados assuntos pertinentes aos ofícios, alguns aproveitavam e amolava a faca-peixeira, numa pedra. Havia aqueles que ostentavam os rádios AM, sempre ligados em algum programa de forró.
Papai tinha um barracão. Vocês têm idéia do que seja isto? Tentarei descrever. Barracão neste caso não faz referência a um barraco grande, ele era um pequeno comércio, que funcionava dentro da nossa casa.
Havia duas portas abertas ao público, um balcão de madeira que ia de uma extremidade a outra da parede. Atrás deste ficavam as prateleiras, também de madeira rústica, pregadas na parede, onde eram expostas as mercadorias.
Papai procurava vender o básico e indispensável à sua clientela, assim sendo, não faltava: rapadura, farinha, feijão, carne de charque, bacalhau, fumo em rolo e granulado em pequenos pacotes, para os tradicionais cigarros brejeiros. Tinha também sabão em pedra, papel para os cigarros, fósforo, sal, querosene da marca Jacaré, que era vendido em litro, usado para abastecer as lamparinas.
Se hoje fosse possível entrar num “barracão” como aquele, com certeza o leitor ficaria admirado com a singularidade do lay-out. Nada parecido com o que se ver atualmente. A balança tinha dois pratos, num era posto o produto e no outro o peso. A farinha era vendida em cuia. Conseguem visualizar uma cuia? Este era um instrumento de medição usado pelo homem do campo. A cuia feita de madeira, num formato quadrado.
Naquela época não havia ainda o uso de sacolas plásticas para as compras. Tudo que fosse necessário ser embalado era feito em papel de embrulho, um papel grosso e resistente. Daí ter nascido a expressão popular: “mais grosso que papel de embrulho”.
Quando escrevo esta crônica sinto minh’alma molhada pelas lembranças. Cada letra, cada palavra, as frases, os parágrafos são centelhas de um tempo precioso. Por que escrevo? Quem me deu o direito de entrar na vida dos amigos e fazê-los cúmplices destas minhas criações? Paciência, calma, falta apenas uma crônica desta série e prometo que não mais os molestarei com as crônicas sensoriais.
Água, um bem maior e indispensável. De onde vêm as águas? As muitas águas que banham nossa vida, que matam nossa sede, que emergem do solo e de maneira humilde correm em pequenos afluentes, riachos que se rendem aos rios e estes deságuam no mar.
A Fazenda Santa Maria ficava na fronteira com o município Maxaranguape, a divisão natural entre este e aquele município sempre foi o rio. Outros córregos existiam dentro daquela fazenda, alguns recebiam nomes: Rio dos Homens, Rio das Mulheres, e outros eram denominados valas, mas todos translúcidos, cristalinos, piscosos, em cujas águas nadavam Carás, Cascudos, Traíras, Cangulos, Piaus e cardumes de piabas, os peixes crianças.
Os perigos que podiam emergir daquela profundeza era uma cobra d’água, um jacaré, mas eles não vinham. Sempre se desviaram dos homens. O grande mal estava invisível aos nossos olhos e tinha o nome de esquistossomose, mas nós conhecíamos popularmente por xistossoma.
__Mãe eu vou para o rio tomar banho!
__Vai não, tem xistossoma demais naquelas águas e você vai adoecer.
Era sempre assim. Desobedecíamos e tomávamos banho, nus, naquelas águas maravilhosas. Eu não sabia o que era xistossoma. Sabia sim, o que era alegria e o prazer de mergulhar naquele rio.
O “Rio das Mulheres” ficava próximo da cocheira, lá elas lavavam as roupas, batiam-na na pedra, alvejavam, quaravam e estendiam nas cercas de arame farpado. Também podiam tomar banho e nenhum homem tivesse o atrevimento de ir até lá bisbilhotar. Aquele era um balneário sagrado, próprio das mulheres.
As águas que as banhavam corriam formando no mesmo leito, algumas curvas adiante, e sempre ornamentadas por aningas, vegetação tão peculiar naquele vale, o “Rio dos Homens”. Eu me orgulhava de tomar banho neste rio.
Naquela fazenda existia também a Lagoa do Mateus, ela situava-se ao Oeste, era totalmente cercada por vegetação de tabuleiro. A primeira vez que a vi foi com tio Chico Leite, ele me levou até aquelas águas e me falou que aquela lagoa foi formada muitos anos depois que um vaqueiro por nome Mateus, morreu de sede, perdido na mata. Lenda? Não sei, só sei que quando as chuvas são fortes e constantes, as águas da lagoa transbordam e correm procurando o Maxaranguape.
Ainda sobre as águas, é bom confessar que bebíamos água de pote. Fria, gostosa, tão nossa. Ela vinha da cacimba, carregada em galões, que feriam pelo peso e pela haste as espáduas dos trabalhadores braçais que abasteciam nossa casa. Canindé e Parreira eram quem mais faziam este serviço, logo nas primeiras horas da manhã.
De todos os dias semanais, o sábado era o mais movimentado na fazenda Santa Maria. E isto porque os homens vinham receber o pagamento da semana e aproveitavam para comprar os gêneros alimentícios.
Eles chegavam aos poucos, sentavam-se nos bancos de madeira que existiam debaixo da tamarineira. Conversavam sobre os mais variados assuntos pertinentes aos ofícios, alguns aproveitavam e amolava a faca-peixeira, numa pedra. Havia aqueles que ostentavam os rádios AM, sempre ligados em algum programa de forró.
Papai tinha um barracão. Vocês têm idéia do que seja isto? Tentarei descrever. Barracão neste caso não faz referência a um barraco grande, ele era um pequeno comércio, que funcionava dentro da nossa casa.
Havia duas portas abertas ao público, um balcão de madeira que ia de uma extremidade a outra da parede. Atrás deste ficavam as prateleiras, também de madeira rústica, pregadas na parede, onde eram expostas as mercadorias.
Papai procurava vender o básico e indispensável à sua clientela, assim sendo, não faltava: rapadura, farinha, feijão, carne de charque, bacalhau, fumo em rolo e granulado em pequenos pacotes, para os tradicionais cigarros brejeiros. Tinha também sabão em pedra, papel para os cigarros, fósforo, sal, querosene da marca Jacaré, que era vendido em litro, usado para abastecer as lamparinas.
Se hoje fosse possível entrar num “barracão” como aquele, com certeza o leitor ficaria admirado com a singularidade do lay-out. Nada parecido com o que se ver atualmente. A balança tinha dois pratos, num era posto o produto e no outro o peso. A farinha era vendida em cuia. Conseguem visualizar uma cuia? Este era um instrumento de medição usado pelo homem do campo. A cuia feita de madeira, num formato quadrado.
Naquela época não havia ainda o uso de sacolas plásticas para as compras. Tudo que fosse necessário ser embalado era feito em papel de embrulho, um papel grosso e resistente. Daí ter nascido a expressão popular: “mais grosso que papel de embrulho”.
Quando escrevo esta crônica sinto minh’alma molhada pelas lembranças. Cada letra, cada palavra, as frases, os parágrafos são centelhas de um tempo precioso. Por que escrevo? Quem me deu o direito de entrar na vida dos amigos e fazê-los cúmplices destas minhas criações? Paciência, calma, falta apenas uma crônica desta série e prometo que não mais os molestarei com as crônicas sensoriais.
Contato com o autor: letrasreais@hotmail.com

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